Sexualidade na Clínica Psicológica
Seminário LACC · 4º Encontro de 2026 · Apresentado por Stephanie Fuhr · 17 de abril de 2026
Cronograma 2026
Visão Geral do Seminário
Este seminário apresentou uma abordagem abrangente sobre sexualidade na clínica psicológica, com foco na Terapia Cognitiva Sexual (TCS). Stephanie Fuhr conduziu a apresentação explorando como a sexualidade é um aspecto central da vida humana que engloba múltiplas dimensões: sexo, identidade e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução.
O encontro enfatizou a importância de psicólogos abordarem questões sexuais no contexto clínico, destacando que a sexualidade é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, religiosos e espirituais — e que é responsabilidade do terapeuta trazer o tema proativamente.
Tema Central
Sexualidade na Clínica e Terapia Cognitiva Sexual (TCS)
Apresentadora
Stephanie Fuhr — Seminário LACC 2026
Público
Ligantes, estudantes e profissionais de Psicologia
Formato
Seminário online com debate e perguntas ao vivo
Conceitos Fundamentais e Questões-Chave
Conceitos e Teorias Principais
Terapia Cognitiva Sexual (TCS)
Abordagem desenvolvida por Aline Sardinha que adapta conceitos da TCC para o contexto sexual.
Tríade Cognitiva Sexual
Como o paciente se vê sexualmente, crenças sobre a parceria e crenças sobre sexualidade em geral.
Escala Kinsey
Demonstra que a sexualidade é fluida e pode mudar ao longo da vida.
Ciclo da Falha Sexual
Padrão de preocupação, ansiedade de desempenho e hipervigilância que perpetua disfunções.
Parafilia vs. Transtorno Parafílico
Interesse sexual atípico versus sofrimento/prejuízo significativo — distinção clínica fundamental.
Questões Importantes Levantadas
Por que a sexualidade ainda é um tema tabu e como isso impacta o trabalho clínico?
Como diferenciar uma queixa sexual de uma disfunção sexual que requer tratamento especializado?
Qual o papel do psicólogo em abordar proativamente questões sexuais nas primeiras consultas?
Como lidar com o desconforto pessoal ao discutir sexualidade com pacientes?
Quando encaminhar para um especialista em sexualidade versus tratar na clínica geral?
Tópico 1
Fundamentos da Sexualidade e Terapia Cognitiva Sexual
A sexualidade foi apresentada como um aspecto central do ser humano que perpassa toda a vida. Segundo a OMS, engloba sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução — vivida em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos e relacionamentos.
Sexualidade Integral
Vai além do sexo e reprodução. Pessoas assexuais, por exemplo, têm uma relação diferente com a sexualidade — nem todas as dimensões são sempre vivenciadas ou expressadas.
TCS de Aline Sardinha
Não criou uma teoria do zero — adaptou conceitos das TCCs (comportamentais, cognitivas, contextuais, neurociência e ensaios clínicos) para o contexto sexual.
Tríade Cognitiva Sexual
Como o paciente se vê sexualmente; crenças sobre a parceria sexual; crenças sobre sexualidade em geral — o que é normal, ideal, certo ou errado.
Avaliação de Caso em TCS
Coleta dados sobre história sexual individual, família, cultura, religião, autoimagem corporal, primeiros contatos sexuais, experiências positivas e negativas, histórico clínico e queixas atuais.

Q&A: Como normalizar a discussão sobre sexualidade no consultório? → Através da prática constante: falar com amigos, parceria e supervisores; treinar nomenclaturas corretas (pênis, vagina, sexo) em frente ao espelho até se tornar natural; e sempre contextualizar por que está perguntando ao paciente.
Tópico 2
Desafios na Abordagem Clínica da Sexualidade
Diversos desafios foram identificados ao trabalhar sexualidade na clínica. Foi enfatizado que perguntar sobre sexualidade deve ocorrer nas primeiras consultas (primeira, segunda ou terceira), como parte da anamnese.
Barreiras Comuns do Terapeuta
Medo de falar algo inadequado
Tópico delicado onde microagressões podem ocorrer inadvertidamente.
Receio de cruzar fronteiras
Perguntas inadequadas socialmente são necessárias no contexto clínico.
Desconforto pessoal
Recomenda-se levar para a própria terapia, supervisão e praticar conversas sobre sexualidade com parceria e amigos.
Influências culturais e religiosas
Afastam tanto pacientes quanto terapeutas de discutir sexualidade abertamente.
Estratégias para Abordar o Tema
01
Começar de forma leve: "Você está se relacionando com alguém?"
02
Usar linguagem neutra: "parceria" ao invés de assumir heterossexualidade.
03
Contextualizar a importância: "Muitas pessoas com ansiedade têm a intimidade impactada."
04
Normalizar: "Pergunto para todos os pacientes." Pedir permissão explícita e validar o desconforto.
05
Oferecer retomar o assunto posteriormente se necessário.
Exemplo clínico: paciente tratado por quatro meses para ansiedade social quando o problema real era disfunção erétil — só revelado depois. Esse é o custo de não abordar o tema proativamente.

Q&A: E se o psicólogo não se sente preparado? → "Eu não sou especialista no tema da sexualidade, mas é um aspecto importante. Você quer que eu te encaminhe para um especialista?" — porém, todo psicólogo deve ter capacidade básica de abordar o tema.
Tópico 3
Queixas Sexuais versus Disfunções Sexuais
Uma distinção fundamental foi estabelecida entre queixa sexual e disfunção sexual. Nem toda queixa é uma disfunção ou problema real — pode ser apenas uma expectativa inadequada, muitas vezes influenciada pela pornografia.
Investigando Queixas Sexuais
Cronologia
Quando começou?
Frequência
Sempre ou ocasionalmente?
Etiologia
Orgânica ou psíquica?
Grau de sofrimento
Leve, médio ou grave?
Estímulo adequado
Sem estímulo adequado não há resposta sexual adequada — a sexualidade não acontece no vácuo.
Critérios DSM para Disfunção Sexual
Perturbação clínica significativa
Ocorre na maioria das situações, não ocasionalmente.
Persistência
Por mais de seis meses, mesmo com estimulação adequada.
Não é consequência de outras condições
Estresse, transtornos mentais, doenças físicas, problemas de relacionamento ou uso de substâncias devem ser descartados.
Disfunções femininas
Transtorno do interesse/excitação, transtorno do orgasmo, transtorno da dor genito-pélvica (vaginismo), disfunção induzida por medicação.
Disfunções masculinas
Desejo sexual hipoativo, transtorno erétil, ejaculação prematura, ejaculação retardada, disfunção induzida por medicação.

Q&A: Quando buscar ajuda especializada? → Quando há disfunção sexual com perturbação clínica significativa, quando a queixa causa insatisfação e prejuízo para si ou para a parceria, ou quando intervenções básicas não trazem melhora.
Tópico 4
Mitos Sexuais e Ciclo da Falha Sexual
O Ciclo da Falha Sexual
A pessoa vai para a relação já pensando que vai dar errado, ativando emoções negativas, gerando desconexão dos estímulos e perpetuando o ciclo. Humor deprimido, vergonha, culpa e ansiedade de desempenho são consequências frequentes.
Mitos Sexuais Desconstruídos
Mito 1
"Se o homem ejaculou, sentiu prazer" — na ejaculação precoce, muitas vezes não há prazer. Homens podem ter ejaculação sem orgasmo e orgasmo sem ejaculação.
Mito 2
"Mulheres que não atingem orgasmo com penetração têm problemas" — a maioria das mulheres necessita outros estímulos além da penetração.
Mito 3
"É errado ter fantasias por outro que não seja meu parceiro" — fantasiar não é trair; é normal e não significa falta de amor.
Mito 4
"Pessoas mais velhas não têm desejo sexual" — o desejo oscila mas não desaparece na terceira idade.
Mito 5
"Sexo normal é penetração do pênis na vagina" — sexo não requer penetração; sexo oral não é apenas preliminar.
Mito 6 e 7
"Fluidos corporais são sujos" e "Um casal que se ama sabe se satisfazer" — amor não resolve tudo; comunicação sobre preferências é essencial.
Tópico 5
Práticas Sexuais, Parafilias e Transtornos Parafílicos
Práticas Sexuais — Ampliando o Conhecimento Clínico
Parafilia vs. Transtorno Parafílico

Parafilia: Interesse sexual persistente e atípico pelas normas culturais. A pessoa gosta e está bem com isso — não requer intervenção clínica.

Transtorno Parafílico: Quando a parafilia causa sofrimento/prejuízo ao indivíduo ou envolve risco/dano a terceiros. Parafilias só se tornam transtornos quando faltam os três pilares: consentimento, segurança e bem-estar.
Para avaliar se é transtorno, pergunte:
Causa sofrimento, vergonha, culpa ou medo?
Envolve crianças, coerção ou dano a terceiros?
Consome muito tempo ou prejudica relações/trabalho?
A pessoa não consegue satisfação de outra forma?

Q&A: Frotteurismo (Pedro Roberto) → Parafilia caracterizada pela excitação obtida ao tocar/esfregar em pessoa sem consentimento, comum em ônibus e shows.
Tópico 6
Técnicas de Tratamento e Recursos Terapêuticos
Psicoeducação
Fundamental sobre fisiologia, modelo cognitivo e desconstrução de mitos sexuais. O consumo excessivo de pornografia cria expectativas irreais que devem ser trabalhadas.
Mindfulness Sexual
Técnicas de atenção plena para estar presente no momento, reduzindo ansiedade e aumentando prazer. Trabalhar autocompaixão reduz o auto-julgamento, especialmente em mulheres preocupadas com o corpo.
Foco Sensorial
Massagem progressiva em etapas: toques não-genitais → áreas genitais → estimulação mútua → penetração (se desejado). Observar temperatura, sensações musculares e zonas erógenas desconhecidas.
Baralho da Sexualidade
Recurso de Aline Sardinha com cartas sobre sexo oral, mitos e fantasias. Frases incompletas ("Sexo perfeito para mim é...") facilitam autoconhecimento e identificação de crenças disfuncionais.

Saúde Sexual (OMS): Estado de bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade — não apenas ausência de doença ou disfunção. Requer abordagem positiva e respeitosa, com possibilidade de experiências prazerosas e seguras. Não ter disfunção não significa estar sexualmente saudável.
"Através de muito estudo, prática e exposição ao tema. Na clínica, minha supervisora comentou que eu parecia atrair pacientes com questões sexuais, talvez porque demonstro abertura e conforto ao abordar o assunto, o que encoraja os pacientes a trazerem essas questões."
— Stephanie, respondendo como consegue tratar o tema com naturalidade
Tópico 7
Recursos Complementares e Curiosidades
📚 Leituras Recomendadas
Aline Sardinha
Terapia Cognitivo-Sexual (1ª e 2ª ed. revista e ampliada) — didático, com exercícios práticos.
Ramiro e Aline Sardinha
Manual de Gênero e Sexualidade na Psicoterapia
Esther Perel
Sexo no Cativeiro
Leitura sobre estupro
Do que estamos falando quando falamos de estupro — aborda estupro matrimonial e formas não reconhecidas.
🎙️ Podcasts
Sexoterapia (Spotify)
Sobre sexo e experiências diversas.
Prazer em Pauta (Spotify)
Raissa Hoepke e Thaís Telesca.
📺 Séries e Recursos Audiovisuais
Sex Education (Netflix)
Comédia sobre adolescentes, mãe sexóloga — aborda vários temas de forma leve.
Como Criar um Quarto do Sexo
Reality com arquiteta montando quartos para diversos tipos de famílias (trisais, grupos de cinco pessoas).
Explicando o Sexo (Netflix)
Minissérie com capítulos curtos — ótima para indicar aos pacientes como psicoeducação.

🏛️ Museu do Sexo em Gramado/RS — único no Brasil (existem oito no mundo). Onze salas com quase 500 obras: máquinas do feudalismo, primeiro vibrador (séc. XIX), cintos de castidade, BDSM, esculturas de posições. Entrada proibida para menores de 18. Demonstra como a sexualidade ainda é tabu mesmo sendo conteúdo histórico e educativo.